Parece que a candidatura de Flávio não é uma unanimidade nem mesmo dentro da família de Jair Bolsonaro. Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente, compartilhou um vídeo do governador Tarcísio de Freitas que mais se assemelhava a um manifesto de quem está pronto para assumir as rédeas do país. O gesto da ex-primeira-dama levantou uma dúvida que agora está na cabeça de todos os aliados políticos da direita. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro vinha se consolidando como o sucessor natural do espólio político do pai, essa nova sinalização indica que as peças do tabuleiro podem estar sendo movidas para uma direção completamente diferente do que foi planejado até agora. Talvez, até mesmo, pelas costas de Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro lançou sua pré-candidatura à presidência dizendo ter sido uma escolha de seu pai, desde então ele foi alvo de muito “fogo amigo”. Aliados de Jair Bolsonaro e políticos de centro foram contra sua candidatura. Silas Malafaia chegou a falar que Flávio se aproveitava de um momento de fragilidade emocional de Bolsonaro para que este o escolhesse para ser seu candidato à presidência da República em 2026. Depois Bolsonaro confirmou que ele havia escolhido Flávio mesmo. Isso reforçou o histórico da família Bolsonaro que sempre priorizou a lealdade absoluta. Mas, os números de pesquisas recentes começaram a mostrar uma realidade que o clã não pode ignorar se o objetivo for realmente retomar o Palácio do Planalto.
Analistas políticos observam que o discurso de Tarcísio de Freitas no vídeo compartilhado por Michelle foca exclusivamente em temas macroeconômicos, como a redução de gastos, o controle da inflação e a abertura da economia. Claramente este não é um vídeo sobre pautas de São Paulo. Tarcísio está falando de temas nacionais em vídeo que tem um tom muito eleitoral.
Dados do Instituto Idea mostram que Tarcísio teria hoje 42,1% das intenções de voto contra 44,4% de Lula, uma diferença que fica dentro da margem de erro. Números que nenhum outro nome da direita conseguiu registrar até o momento. Por outro lado, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem enfrentado dificuldades para furar a bolha do conservadorismo mais radical. A estratégia de Flávio tem sido muito parecida com a de 2018, focada no barulho político e em declarações polêmicas, como a sugestão de nomear Eduardo Bolsonaro para o Itamaraty, o que acabou gerando críticas até entre aliados mais próximos que buscam uma alternativa mais programática e menos ruidosa para enfrentar o PT. Mas, Flávio também tem mostrado que sabe aprender, ao indicar que irá revelar os nomes dos escolhidos para serem ministros no decorrer da campanha, a fim de trazer apoio do Mercado.
Agora, mesmo diante dos números tão melhores de Tarcísio frente a Lula, será que Jair Bolsonaro estaria disposto a abrir mão de ter um filho na cabeça de chapa em nome de uma vitória mais segura? Existe um temor latente de Bolsonaro de que Tarcísio, uma vez eleito, não mantenha a mesma fidelidade que um membro da família teria, o que explica por que o ex-presidente ainda hesita em dar a bênção final ao governador. Ao mesmo tempo, o gesto de Michelle Bolsonaro sugere que há uma divisão interna, onde uma ala do movimento entende que insistir em Flávio pode ser o maior trunfo para uma nova vitória de Lula.
A semente da dúvida plantada por Michelle Bolsonaro mostra que o consenso dentro do grupo está longe de ser alcançado e que a sobrevivência do bolsonarismo pode depender de uma escolha difícil entre o sangue e a viabilidade eleitoral. Se Tarcísio de Freitas é a peça que falta para derrotar o projeto atual ou se Flávio Bolsonaro conseguirá reverter essa percepção de isolamento, é algo que as próximas semanas de negociações intensas devem revelar.
